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A LÓGICA DO DESEMPREGO E A QUESTÃO DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL EM CUBATÃO

O mito da falta de qualificação para justificar o desemprego não passa da velha tática de responsabilização da vítima.


Os empresários do Polo Industrial de Cubatão costumam utilizar a suposta “falta de qualificação profissional” do cubatense para justificar o aumento do desemprego em nossa cidade. No entanto, essa falácia não resiste a uma simples análise histórica ou à revisão de alguns dados. Vejamos: segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Governo Federal, a taxa de distorção idade série em Cubatão, entre os anos de 2009 e 2019, diminuiu sensivelmente. Isto é, mais pessoas conseguiram concluir a educação básica, aumentando a qualificação geral para o ingresso no mercado de trabalho:

TAXA DE DISTORÇÃO IDADE SÉRIE*
20092019
1ª a 4ª série – 14,3%1ª a 4ª série – 8,2%
5ª a 8ª série – 30,3%5ª a 8ª série – 15,6%
Ensino médio – 29,0%Ensino médio – 17,3%
*Fonte: Inep/MEC

No entanto, ao mesmo tempo em que aumentou a escolarização média da população trabalhadora, diminui, na razão inversa, a oferta formal de postos de trabalho. Segundo a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Sead), Cubatão perdeu quase 20 mil postos de trabalho formal nos últimos dez anos, e isso não se explica pela falta de qualificação:

EVOLUÇÃO DO TRABALHO FORMAL EM CUBATÃO

Setor 2010 2019 Total
Indústria 24.142 11.525 12.617 (52,2%)
Serviços 19.120 13.034 6.086 (31,8%)
Total43.262 24.559 18.703 (42,2%)
*Fonte: SEAD

Como explicar esse fenômeno? Para explicá-lo, é preciso entender, em primeiro lugar, que o objetivo do empresário/acionista sempre foi (e sempre será!) a maximização dos lucros; e eles não aceitam outra forma de encarar os negócios, afinal, na concorrência do mercado, qualquer benesse pode significar a falência do empreendimento. É dentro dessa lógica que as inovações tecnológicas adotadas no Polo ao mesmo tempo em que aumentaram sua produtividade geraram o desemprego e a desgraça daqueles que produzem toda a riqueza: os trabalhadores.

Em segundo lugar, é preciso compreender o mecanismo que gera a descartabilidade do trabalhador cubatense, ou seja, a tendência do Polo Industrial em aumentar seus lucros através da busca incessante pelo menor preço de força de trabalho. Um trabalhador que, além de seu serviço, conheça bem seus direitos geralmente não se submete às condições de trabalho e salário que lhes são oferecidas pelo Polo. Por isso, o empresário/acionista do Polo, por trás das empresas terceirizadas, prefere buscar mão de obra em outras regiões, trazendo um trabalhador menos qualificado e mais ingênuo, que se submeta a qualquer condição de trabalho e remuneração para ser triturado nas engrenagens das indústrias.

Não são poucos os casos de trabalhadores aliciados em outras regiões que são submetidos a condições análogas à escravidão em nossa cidade. Depois que compreende a exploração, se qualifica e passa a reivindicar mais direitos esse trabalhador é dispensado e substituído por nova mão de obra desqualificada, recrutada em outros rincões do Brasil. Ora, não foi esse mecanismo que configurou nossa cidade do jeito que ela é hoje? De fato, Cubatão se formou a partir do fluxo de migrantes descartados pela indústria, que explora e descarta sua mão de obra há mais de setenta anos.

Mas se aos empresários/acionistas não interessa o bem-estar dos trabalhadores cubatenses, de quem devemos cobrar melhores condições de vida e emprego? Um papel importante poderia ser jogado pelo Estado, em suas esferas federal, estadual e municipal, regulando a ação predatória dos capitães da indústria. Mas não parece existir essa “boa vontade” por parte de nossos governantes… Estes, quase sempre, estão comprometidos até os ossos com os interesses do Polo, seja economicamente, seja pelo puro cálculo eleitoreiro. Por sua vez, a prefeitura alega que maior regulamentação da exploração dos recursos naturais ou da força de trabalho na região poderia proporcionar a migração do Polo para outra região do País. No entanto, isso parece pouco provável, pois além da localização estratégica, e de anos de investimento em infraestrutura, que outro contexto suportaria, novamente, toda a violência e degradação impostas durante todos esses anos à nossa região?

Sendo assim, estão de parabéns a livre organização dos trabalhadores desempregados e os sindicatos que apoiam essa luta, pois só os trabalhadores unidos e organizados possuem as condições necessárias para defender, melhor do que ninguém, seus próprios interesses. E mais: os interesses dos trabalhadores desempregados de Cubatão expressam, na verdade, os interesses de desenvolvimento e bem-estar de toda nossa região.


Notícia atualizada em 27/07/2021 09h59

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Comentários

Erenita Maria Barbosa

27 de Jun 2023 - 01h18

Parabéns pela análise

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